sexta-feira, 22 de junho de 2012

KABIR, O POETA APAIXONADO POR DEUS


Reverenciado como santo por hindus, muçulmanos e sikhs, ele combateu o fanatismo religioso e proclamou a unidade profunda de todas as religiões. Seus poemas são ainda hoje recitados em salas de aula e cantados alegremente por milhões de seguidores

Por José Tadeu Arantes

O fanatismo religioso tornou-se uma das maiores doenças do mundo contemporâneo. Cristãos contra judeus, judeus contra muçulmanos, muçulmanos contra hindus, hindus contra budistas, a epidemia parece não ter fim, sobrevivendo ao avanço da ciência, à democratização das formas de governo e ao vertiginoso desenvolvimento dos meios de comunicação. Neste tempo de conflitos, temos muito a aprender com a experiência dos grandes místicos que, ultrapassando as diferenças exteriores das religiões, foram capazes de alcançar sua unidade profunda. Kabir, o célebre poeta indiano do século XV, foi um dos maiores. Em versos inspirados, ele ironizou a tolice dos fanáticos. E proclamou seu amor irrestrito a Deus. Na Índia, é até hoje reverenciado como santo por adeptos de três religiões: o hinduísmo, o islamismo e o sikhismo.

O nome que adotou, Kabir Das, já é uma expressão de sua submissão a Deus e de seu ecumenismo religioso. Pois Kabir é a palavra árabe para "Grande". E Dasa, o termo sânscrito para "Servo". Kabir Das, o "Servo do Grande", nasceu na cidade santa de Benares (Varanasi), em 1398. Atribuindo-lhe uma existência extremamente longa, de 120 anos, seus seguidores afirmam que ele viveu até 1518. Porém os estudiosos ocidentais tendem a considerar 1448 como o ano mais provável de sua morte.

Os europeus – ou ao menos Colombo – ainda não haviam chegado à América. Mas, na Índia, duas tradições místicas, profundamente semelhantes em sua essência, experimentavam um momento de apogeu: o bhakti hinduísta e o sufismo muçulmano. Ambas elegiam o amor apaixonado como forma preferencial de relacionamento entre o homem e Deus. Ambas reivindicariam Kabir como um de seus maiores mestres. O mesmo seria feito pelos sikhs, que incluíram centenas de versos do poeta em seu livro sagrado. A afinidade de Kabir com aquilo que o bhakti e o sufismo possuem de mais característico encontra-se perfeitamente condensada nesta frase magistral: "Desde o dia em que me encontrei com meu Senhor, o jogo de nosso amor não teve fim".

Sua biografia atesta que, desde o início, ele estava destinado a transpor as barreiras que separavam as comunidades hinduísta e islâmica. Pois diz a tradição que, tendo sido abandonado pela mãe, uma viúva hindu da casta dos brâmanes, foi adotado como filho por um tecelão muçulmano. Sua educação islâmica não o impediu de, ainda menino, aproximar-se de um importante mestre espiritual hinduísta: Ramananda, discípulo do célebre Ramanuja. Reconhecendo em Ramananda seu guru predestinado, Kabir pediu ao iogue que o aceitasse como discípulo. E assim ocorreu.

Em sua famosa Autobiografia de um Iogue, Paramahansa Yogananda (1893-1952) afirma que Kabir teve também um outro mestre: ninguém menos do que o grande Babaji, o sublime iogue cujos devotos afirmam estar vivo e oculto na Terra há quase dois mil anos. Quaisquer que tenham sido suas fontes de inspiração, é certo que Kabir possuía íntima familiaridade com a cultura da yoga, especialmente com a antiquíssima tradição dos siddhas, os chamados "iogues perfeitos".

Vegetariano e visceralmente contrário aos sacrifícios de animais, pautou sua vida pelo princípio da não-violência (ahimsa). A esse respeito escreveu: "O homem que é gentil e pratica a retidão, que se mantém impassível em meio à turbulência, que considera as criaturas do mundo como seu próprio eu, este alcança o Ser imortal; o verdadeiro Deus está sempre com ele". Mas, ao contrário de tantos ascetas, ele não renunciou às atividades mundanas nem foi celibatário. Consta que, como seu pai adotivo, exerceu o ofício de tecelão. E que casou e teve dois filhos. A tradição atribui à sua esposa o nome de Loi.

Benares era então dominada pelos brâmanes, a casta sacerdotal. Com suas opressivas regras sobre o que podia ou não podia ser feito, os brâmanes atormentavam a vida das pessoas comuns. Por aceitar mulheres em seu amplo círculo de discípulos, Kabir passou a ser hostilizado pelos sacerdotes. Porém não se deixou intimidar. E respondeu aos ataques com poemas satíricos. Mais tarde, quando o muçulmano Tamerlão (Timur, o Coxo) devastou a cidade e as rígidas autoridades islâmicas passaram a mandar na vida religiosa, ele igualmente ridicularizou seus ritos. Suas farpas contra os fanáticos das duas religiões conquistaram o coração do povo, mas despertaram a ira dos poderosos. Objeto de intrigas, o poeta foi exilado de Benares. Isso não impediu que a fama de sua santidade se espalhasse pelo país e que um número cada vez maior de seguidores se reunisse à sua volta.

Seus ataques às formas exteriores das religiões não devem ser entendidos como um menosprezo pela fé das pessoas. Foram, ao contrário, a expressão de um homem que experimentou Deus dentro de si mesmo. E que estava ansioso por comunicar ao mundo a força libertadora dessa experiência, que transcende os dogmas, as regras e os ritos. Como Jesus, Kabir ensinava seus discípulos a rezarem em silêncio, sem ostentação, em íntima comunhão com a Divindade. Em um de seus mais belos poemas, ele afirmou:

Com a mente imersa no Amor, por que deveria eu falar?
Havendo amarrado o diamante, por que desfazer o nó? (...)
O cisne, alcançando o lago, precisa nadar em poças e pântanos?
Teu Senhor é teu próprio Ser; por que procurá-lo fora?
Kabir diz: Escuta minhas canções!
Eu realizei o Senhor internamente, como o óleo contido na semente.
(tradução de José Tadeu Arantes)

De volta a Benares, ele continuou ensinando, apontando a diferença entre a experiência religiosa e a superstição. Foi um mestre até a última respiração. Passou seus derradeiros 40 dias vivendo em um lugar do qual diziam que, se alguém nele morresse, renasceria na próxima vida como asno. Quando finalmente morreu, hindus e muçulmanos reclamaram seu corpo, cada comunidade querendo proporcionar-lhe ritos fúnebres de acordo com suas respectivas regras. Conta a lenda que, ao erguer o lençol mortuário, a multidão se surpreendeu ao descobrir que o corpo havia desaparecido. Em seu lugar, havia apenas um belo buquê de flores. Este foi dividido em duas partes iguais: conforme seus costumes, os hindus cremaram uma metade e os muçulmanos enterraram a outra. Seus poemas continuam a ser recitados por crianças em sala-de-aula e cantados por milhões de devotos. Diz um deles:

Um diamante estava jogado na rua, coberto de sujeira.
Muitos tolos passaram ao largo.
Alguém, que conhecia diamantes, este o colheu.
(tradução de José Tadeu Arantes)

Que o brilho diamantino de sua vida nos ajude a dissipar as trevas deste tempo de ignorância!

José Tadeu Arantes (tadeuarantes@thenewlife.com.br)
The New Life


* Destaques no texto meus.

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