sábado, 10 de outubro de 2009

Boas novas que os ventos nos trazem!

Parabenizando uma vez mais a posse da nova diretoria da FEURO - Federação Espírita de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo Reino de Oxalá, ocorrida em Bauru no último dia 04/10 em festiva confraternização, recebo informação através de um Amigo Umbandista (confesso que sou reticente em chamar a todos de Irmão de Fé indistintamente, fazer o quê? questão de identidade ou melhor, questão de olho no olho, enxergar que o discurso corresponde a vivência...), Pedro Kritski, sobre ações promovidas pela recém reativada(segundo Pedro foi em agosto último) FUEP - Federação Umbandista do Estado do Paraná, são boas novas nestes tempos de cansaço auricular das retóricas doutrinárias, políticas.

http://fuep.blogspot.com/

"No último dia 22/03, foi realizada a AGO para eleição da nova direção da FUEP, reforma estatutária e discussão de outros assuntos. Mesmo sabendo da reação que muitos tem com o termo “Federação”, isso em função de uma série de infortúnios causados pelas federações existentes, concluiu-se que o patrimônio de um nome construído nos últimos 40 anos, uma vez que a data de fundação da FUEP é de Maio/1968, não se poderia dispensar. Desta forma, com a participação de 14 Templos e 50 umbandistas que assinaram a lista de presença, foi reativada a FUEP e eleitos os Conselhos Deliberativo e Fiscal e a Direção Executiva. A Direção Executiva, em conjunto com os Conselheiros eleitos prometem dar uma chacoalhada nos Umbandistas do Paraná, propondo uma série de atividades culturais, sociais, religiosas e educativas, que contribuirão para o resgate do orgulho em ser médium da nossa religião. A FUEP é a obra da vida do Senhor João Mendes dos Santos, o João “Fogo”, presidente em diversas oportunidades e que faleceu em 2008. A ele e a tantos outros que nos antecederam, rendemos as nossas homenagens."

Interessante a auto-crítica;

"Mesmo sabendo da reação que muitos tem com o termo “Federação”, isso em função de uma série de infortúnios causados pelas federações existentes", é igualmente e mais importante nesta conscientização, a apresentação de propostas de mudanças na concepção deste termo ( há poucos dias fiz exatamente esta mesma colocação para uma pessoa e diante da resposta, disse espontâneo, abismado até: "Mas então, a quê veio?).

Seguido de com quem?

"com a participação de 14 Templos e 50 umbandistas que assinaram a lista de presença" ou seja, muitos na comunidade certamente foram procurados e chamados (até mesmo, quero crer, os que não acreditam mais ou desiludidos estão com o termo supracitado), e quero crer mais, que ninguém foi esquecido ou deixado de lado nesta convocação (mesmo os que divergem ou são reticentes) sendo que os se identificaram com a novas propostas, assinaram.

E o essencial, o como?

"prometem dar uma chacoalhada nos Umbandistas do Paraná, propondo uma série de atividades culturais, sociais, religiosas e educativas, que contribuirão para o resgate do orgulho em ser médium da nossa religião." (aqui peço perdão aos Amigos da FUEP, pois compreendo o sentido positivo do uso do termo orgulho, mas ainda prefiro que ao invés deste tenhamos mesmo é convicção).

Através de projetos concretos que unem congraçamento, conscientização e serviço (destaques em vermelho meus);

Comemoração dos 101 anos da Umbanda

Saravá Umbandistas do PR

No dia 15/de Novembro, domingo, das 10:00 às 18:00 h, a FUEP e os templos associados realizarão "1º Dia COMUM - 1º Dia da Comunidade Umbandista do Estado do Paraná", no Parque dos Tropeiros na CIC, em Curitiba, em comemoração ao aniversário da Umbanda, seus 101 anos.

Serão feitos cartazes e panfletos para divulgação do evento, tanto nos templos para as correntes e assistencias, quanto na sociedade.

Será um dia inteiro de atividades:

1 - Gincana cultural:

Iniciará no dia 01/11 para finalização no dia 15/11, com premiação para as equipes e que constará de provas:

Culturais: Resposta a perguntas sobre a Umbanda no PR (para resgate da nossa história)

Obs: Grande sacada!!!! Não basta só reverenciar o passado, é preciso conhecê-lo!!!!

Sociais: Arrecadação de alimentos não perecíveis, fraldas, leite e brinquedos, doação de sangue e de medula óssea dentre outras.

Grande sacada 2!!!!! Agregar serviços que traduzem como existem várias maneiras de uma religião servir ao próximo, a sociedade onde está inserida.

Ecológicas: Atividades de preservação ambiental

Grande sacada 3!!!!!! é demonstrando que se aprende.

As equipes deverão ser formadas nos templos, uma por templo, com no máximo 30 (trinta) integrantes) ou nos terreiros que tem mais de uma Gira, como o Terreiro Pai Maneco, serão aceitas uma equipe por Gira.

1.2 - Provas rápidas no dia do evento:

No dia do evento serão constituídas equipes por sorteio para provas rápidas no local, entre todos os participantes, como forma de congraçamento dos umbandistas dos diversos templos e das suas famílias.(corrida do saco, etc.)

Obs: Deveras interessante o uso do termo congraçamento (que vem de congraçar:Reconciliar; harmonizar / Fazer, ou buscar a reconciliação; harmonizar)

1.3 - Entretenimento para a criançada:

Durante todo o dia, contaremos com equipes de recreacionistas para entreter a criançada de forma a possibilitar uma participação efetiva também de mães e pais.(piscina de bolinha, pula-pula, etc.)

2 - Festival gastronômico com comida de santo:

Será instalada uma praça de alimentação, onde cada templo se responsabilizará pela instalação de uma barraquinha de comida (cachorro quente, pipoca, milho, bolo, churrasquinho, etc.) para alimentação das pessoas que forem ao evento, podendo também preparar alguma comida ritualística.

Esta comida será vendida, e os recursos arrecadados serão repassados aos templos, com uma parcela de 5% para a FUEP.

Observações:

A bebida será centralizada pela FUEP e o lucro com a sua venda será dividido entre os templos participantes.

Grande sacada 4!!!!!! Todos trabalham e todos recebem a contrapartida

Não serão vendidas bebidas alcólicas.

Haverá um caixa centralizado da FUEP para a venda de fichas, que serão usadas para a compra dos produtos e serviços.

3 - Apresentações Culturais:

3.1 - Apresentação das curimbas dos terreiros e de outros artistas umbandistas locais que queiram se apresentar.

3.2 - Exposição de fotos e de outras formas de expressão artística de umbandistas.

3.3 - Feira de artesanato e outras produções dos templos: Camisetas, etc.

3.4 - Show musical com grupo de renome no estado do PR

4 - Serão convidadas representações de povos tradicionais de comunidades do nosso estado, tais como quilombolas, indígenas e ciganos que também se apresentarão com música, dança ou outra atividade e que poderão instalar também barracas para a venda da sua produção artesanal.

Como se pretende passar um dia inteiro em confraternização da grande família umbandista do estado do PR, teremos uma equipe de monitores para divertir a criançada, assim pais e mães podem ir tranquilos, pois a diversão está garantida.

Data limite para inscrição das equipes por terreiro/gira, definição dos responsáveis pelas barracas: 20/10/2009

Reunião Geral com a Comissão Organizadora: 22/10/2009

Em breve maiores detalhes quanto às atividades, desde já, aproveitando as giras que acontecerão ao longo da semana, deverão ser formadas as equipes.

É imprescindível para o sucesso do evento, a participação dos Dirigentes dos templos, motivando as suas correntes a efetivamente participar, aproveitando a oportunidade para escolher os representantes nos coletivos da FUEP em cada templo.


Enfim, são de fato boas notícias que acredito tragam ânimo novo à comunidade umbandista, pois sinalizam que novas formas de condução, apresentação de projetos concretos, transparência e respaldo são o que que de fato espera-se de uma Federação.


Que Pai Oxalá os abençõe!

Que Pai Ogum oriente à comunidade umbandista na participação e observação dos propósitos!


Que acima esteja sempre a bandeira branca da Umbanda a nos orientar!


Paz e Luz!


Obs: Pedro Kritski escreve juntamente com Renato Guimarães no blog abaixo, visite e saboreie.

Não recomendado para estômagos acostumados com temperos insossos e paladares insipientes;

Registros de Umbanda

http://registrosdeumbanda.wordpress.com/

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ô pirdissaum qui é de rumina num sabe?

“Eu não tinha pais. Eu adotei o céu e a terra como meus pais!
Eu não tinha casa. Eu adotei estar consciente como minha casa.
Pra mim não existia vida e morte. Eu adotei a respiração e a aspiração como vida e morte.
Eu não possuía meios. Eu adotei a compreensão como meu meio.
Eu não possuía habilidades especiais. Eu adotei a moral como minha habilidade especial.
Eu não possuía olhos. Eu adotei ser rápido como a luz, como meus olhos.
Eu não possuía ouvidos. Eu adotei a sensibilidade como meu ouvido.
Eu não possuía membros. Eu adotei a agilidade como meus membros.
Eu não possuía estratégias. Eu adotei não desvanecer de pensamento como minha estratégia.
Eu não possuía projetos. Eu adotei prever oportunidades como meu projeto.
Eu não possuía princípios. Eu adotei me adaptar às situações como meu princípio.
Eu não tinha amigos. Eu adotei meu coração como meu amigo.
Eu não possuía talentos. Eu adotei o ser persistente como meu talento.
Eu não possuía inimigos. Eu adotei a imprudência como minha inimiga.
Pra mim não existia milagre. Eu adotei levar a vida corretamente como milagre.
Eu não possuía corpo. Eu adotei a paciência como meu corpo.
Eu não possuía armadura. Eu adotei a compaixão e a solidão como minha armadura.
Eu não era iluminado. Eu adotei a determinação como minha iluminação.
Eu não possuía espada. Eu adotei a ausência de ego como minha espada”.


Este poema foi escrito por um Samurai no século XV

Estive “ruminando” sobre alguns comentários relativos ao texto “Orgulho Umbandista? Escolho Convicção!” e que motivaram passeio por antigas comunidades umbandistas no Orkut, as que ainda existem e outras onde pude bisbilhotar.

Nunca gostei de Msn, listas. Aprendi a duras penas a conviver e valorizar poucos, poucos mesmos Amigos virtuais (mesmo que nunca tenha visto a fuça e trocado um abraço, gesto caro ao meu coração, não contam a Kátia Rister e família e o Paulo Mauad do RJ).

Como li certa vez, quem é amigo de todo mundo não é amigo de ninguém.

Revi sem saudades ou remorsos (salvo as gafes, idiotices, falácias, incoerências que cometi, as quais muitos se esborracharam de gargalhadas, o que espero tenham feito realmente, pois eu o fiz!), como empreguei tempo de vida e como muitos ainda o fazem.

Isso me fez ensimesmar, pois não sendo mais o Edenilson de anos atrás física-psíquica-ideológica-emocional-esp
iritual/MENTE, procurei perceber se ainda havia algo impresso naqueles com quem encontrei e deles em mim tbm. Vi o espectro cada vez mais distante, mas não ausente do EGO (sua sombra sempre a nos espreitar) e seus ardis: a hipocrisia, a mentira, o recurso fácil e covarde, a crítica pela crítica, a arrogância do intelecto, o orgulho infantil de saber usar um dicionário, a “vitória” pela humilhação, o grito agressor, a ameaça como imposição de respeito, a dissimulação embalada como elegância, a estupidez emoldurada como franqueza.

Quantas vezes citei O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde...

Revi a insegurança e a mediocridade que conduzem ao desespero de encontrar “argumentos” (O Google é nosso pastor e nada nos faltará! = control c + control v) para “derrotar” ao outro e depois dançar sobre seu “cadáver”.

Por muito tempo instalei e mantive o inferno dentro de mim (pode-se dizer, prq não, que é isto que se tornaram muitas “comunidades” umbandistas) e claro as mesmas torturas prazerosas que me submetia, generoso “distribuía” aos demais.

Vi o fantasma do que eu era e o chamei pelo nome (é desta forma que os pacificamos), mas aquilo já não tinha mais nome, se tornou uma fumaça.

É certo quando dizem só acontecer mudanças em nós quando cansamos de fingir que a dor que sentimos é suportável, “gostosinha até”. Não, não é! E não há álcool, sexo, drogas, diversão nem mesmo rock roll que alivie apesar de “só” Jesus salvar que disfarce.

Sem contar o cheiro fétido que exala da poça emocional represada que vai infectando e pouco a pouco nos matando.

Quantas vezes disse que ao postarmos, revelamos o que escolhemos semear e cultivar dentro de nós...

Quantas vezes escrevi e não li, disse e não ouvi, exortei e não pratiquei...

Entre os comentários que me chamaram a atenção, este tomou valor especial;

“Em relação ao texto, claro que convicção é melhor que orgulho pelo fato dessa palavra - orgulho - dar margem a duplas e tríplas interpretações, tanto positivas quanto exclusivamente fanáticas. No entanto, convicção mesmo, pra existir DE FATO e não somente por insistência auditiva e oral repetitiva, envolve a necessidade de se conhecer um tanto quanto profundamente o tema sobre o qual se vai declarar convicto, ou seja, pra que se demonstrem verdadeiramente convictos umbandistas (e não somente se anunciem como) é preciso antes que conheçam a Umbanda em profundidade e não apenas superficialmente, de modo que convictos de fato, até hoje são muito poucos.” By Ana Triton

Quantos estão dispostos a dar tal mergulho no Oceano Umbanda?

Ir até o fundo, garimpar em busca dos seus tesouros e relíquias encobertos pela areia, pedras, congressos, manifestos, teses, códigos, livros ou escondidos entre o lixo irresponsável jogado por anos, imagine encontrar àquele mesmo espelhinho e hoje encarar-se no seu reflexo ou àquele vidro de perfume vagabundo que ao contrário do vinho, não melhora com o tempo e depois de retomado o fôlego, separar, limpar e avaliar cuidadosa e serenamente o que foi encontrado.

Realizar esta jornada buscando muito mais que a confirmação de possíveis/impossíveis fontes africanas, ameríndias, esotéricas ou cristãs. Ainda que tais sub-denominações sirvam para nortear a quem assim faça ou procure, o proceder daquela afluente umbandista.

Quantos estão de fato dispostos a abandonar o canto de sereia dos títulos, cargos, faixas, diplomas, honras ao mérito, privilégios, pompas e circunstâncias, tapetes estendidos e ainda sabendo que muitos irão desdenhar, ironizar, achincalhar, difamar, seguir caminhando em paz ouvindo sua consciência, rimando responsabilidade e amor?

Quantos terão a atitude imprescindível da humildade em reconhecer, após tão difícil e extenuante tarefa que o modo como concebia, exaltava, discursava, escrevia e praticava Umbanda precisa ser retificado. Que a base na qual se apoiava esta corroída, as paredes mal aprumadas, a argamassa de qualidade duvidosa?

Sendo todo umbandista um templo vivo, como se poderia assentar um altar/peji/congá interior para que nele a Luz e a Lei de Umbanda possam de fato e direito habitar em sua Unção com tal estado?

É inquestionável seja feita mais que uma reforma tipo “provisória, mas pra sempre”, um decreto aqui, um grito de ordem ali, um curso de tantas horas ou anos, um discurso bonito com a voz embargada, um texto bem escrevinhado, uma tradução de oração ou canção para o yorubá, tupi, latim ou sânscrito, uma indignação providencial.

É necessário “cingir os rins” de coragem para saltar! Porém ciente, não há rede, seguro, cordinha, sopro de dodói, só há entrega e confiança total.

Algo me diz que a Umbanda, como a compreendo Escola da Vida Maior, não dispõe de tolerância e condescendência infinitas com os que se acovardam diante da efetiva vivência de seus ensinamentos, tal como fazem quem fica à beira-mar tocando com as pontas dos dedos prá saber se a água está ou não confortável, adequada, ideal, doutrinariamente costuradinha, se compensa molhar os pés.

Estes nunca estarão dispostos a entrar de corpo inteiro, espírito e verdade na sua Luz.

Assim como o mar com suas incessantes ondas e marés, a Umbanda devolve tudo àquilo que os usurpadores lançam em suas águas.

Devolve prá onde?

Para o mesmo lugar onde recolheu, o coração de quem assim desejou, templo de nossa verdade, para que cada um ali mergulhe, garimpe, limpe, selecione e avalie o que ofertou.

Enfim, a Umbanda recolhe e devolve exatamente o que cada um semeou...

Que não nos falte coragem para encaráramos frente a frente tal imagem!

Obs: Ô pirdissaum qui é de rumina sô! tradução: A maldição do discernimento, by Amigo João Carlos, eita cabra bão dimais da conta!!!!!


Dedico em especial este texto para minha Amiga Rosana, sem sua ironia, lucidez loira e os indescritíveis haham haham eu não teria conseguido,rsrsrsrsrs


Paz e Luz!

sábado, 19 de setembro de 2009

Orgulho Umbandista? Escolho Convicção!

“Orgulho de ser umbandista!” Orgulho de quê? Prefiro Convicção!

Já há algum tempo “rumino” na horta mental sobre algo que ouço e leio há mais tempo ainda, o orgulho de ser umbandista.

Quero crer que tal incentivo se deva ao fato de haver campanhas declaradas ou não de outras denominações doutrinárias/religiosas (ou não) detratando os umbandistas. Assim como o fato do próprio umbandista se expor auto-classificando outra coisa: católico, espírita, espiritualista, zen católico espírita, ascencionado ou ascensorista do astral, etc. Talvez um sintoma de esquizofrenia espiritual...

Desde o primeiro contato com tal moção à comunidade umbandista, me senti incomodado com o termo orgulho e mais ainda com os possíveis objetivos para o qual esta se apresentou necessária.

Após (e não ainda completa reflexão sobre o tema) nas idas e vindas desta maravilhosa jornada que chamamos Vida, me deparei com alguns textos que só “pioraram”, minha situação, pois elevaram a meditação.
Vamos então ao exercício de fazer a pemba trabalhar.

Li um artigo de Caroline S. Treigher (maravilhoso, honesto, autêntico, profundo) com o seguinte conteúdo:

www.papopsi.com/2009/06/orgulho.html

“O que é o orgulho? Diz o dicionário Aurélio, entre outras sinonímias: 1. Sentimento de dignidade pessoal; 2. Conceito exagerado ou elevado de si próprio. De fato, é o que usualmente denominamos orgulho, e que acreditamos, de modo geral, ser um defeito. Pelo menos quando se diz que uma pessoa é orgulhosa, não se trata de um elogio, mas uma crítica.

Entretanto, o que torna alguém orgulhoso? Será realmente a dignidade pessoal, o conceito elevado de si próprio? Acho que não. Muito pelo contrário, penso que uma pessoa orgulhosa sofre de baixa auto-estima. Pode parecer contraditório, mas se nos aprofundarmos na personalidade que normalmente se denomina orgulhosa, encontraremos, sim, um baixo conceito de si.

Ora, o orgulhoso proclama-se melhor que os demais. Para isso alega muitos fatores, que vão desde a aparência pessoal, a raça ou berço, ao brilho do intelecto. Olha os outros por cima, com um ar de superioridade implícito, como se fosse detentor de uma qualidade única, pertencente a alguns poucos privilegiados da humanidade, entre os quais, claro, está ele.

Mas tudo isso se deve a uma profunda insegurança. Ele se agarra a aspectos externos ou atributos visíveis, para alegar uma grandeza da qual intimamente duvida. Quer convencer o mundo de que é bom, superior, melhor. Talvez porque se o mundo se convencer disso, ele próprio se convença.”


Destaco este trecho:

“Ele se agarra a aspectos externos ou atributos visíveis, para alegar uma grandeza da qual intimamente duvida. Quer convencer o mundo de que é bom, superior, melhor. Talvez porque se o mundo se convencer disso, ele próprio se convença.”

É aqui que começo a questionar sobre o aclamado orgulho umbandista!

Vemos tal apelo em muitos textos, debates e discursos (eu mesmo já os fiz, “irmãos temos que mostrar quem somos!”, participei inclusive da criação da camiseta: Umbanda Eu visto esta Camisa! Quando militava na Umbanda Fest), e desde esta época dizia e tinha perfeita noção de que ao usá-la me tornava alvo, nem por isso deixei de fazê-lo ainda hoje. E prq? Retornemos ao texto de Caroline;

“Quem se sente bem consigo próprio e está seguro de suas atribuições, não precisa impor nada a ninguém. Sua consciência é o que lhe basta.”

Podemos perguntar, se assim é para quê então usar a camiseta ou uma guia exposta no pescoço ou outro adereço qualquer? Não seria por si só uma imposição, enquanto ao mesmo tempo uma demarcação, uma provocação ou ainda auto-rotulagem?

A resposta está na seguinte condição; Usar algo que nos destaque conterá sim os fatores supracitados, porém se o valor das nossas convicções tiver maior relevância que os adereços, nos destacaremos certamente muito mais pela dignidade expressada em nossos atos do que pelo reconhecimento ou o marketing sobre os mesmos.

Recordo-me de um episódio ocorrido em torno de 5 meses, estava na unidade do Poupa Tempo em Bauru, quando avistei um rapaz usando a camiseta que citei, sentindo alegria e algum orgulho, fui até ele;

“Olá! Estou vendo a camiseta, a qual Casa o irmão pertence?”

R – “Como???????”

“Vc está usando a camiseta que nasceu aqui em Bauru, vc é umbandista?”

R – “Aaaaaaahhhh tá! Esta camiseta eu ganhei num albergue lá em Campinas! Nem sei o que é isto, Umbanda.”

Tente imaginar a minha expressão de “cara de cor de cerca de burro quando foge” ao ouvir isto... É claro que procurei da maneira mais simples e sem proselitismo explicar o que é o tal isto, Umbanda.

Tempos depois me lembrei jocosamente que poderia ter agarrado o rapaz pela camiseta e vociferado: “Tú não merece usar esta camiseta, tu é moleque, tu é moleque!” tal e qual um Capitão Nascimento do terreiro, rsrsrsrsrsrsrsrs

Neste ponto recomendo a leitura do texto do Sr. Gregório Brandão, Dirigente do CUCA;

http://soufelizporserumbandista.blogspot.com/2009/09/o-umbandista-verdadeiro-e-o-umbandista.html

Continuando...

Quem está convicto de sua fé ou de seus ideais (convicção: estar convencido por fatos ou raciocínio), aplica em si mesmo, torna-se o reflexo vivo daquilo que lhe dá sentido e razão de viver.

“Não seria esta a postura de quem realmente possui uma elevada auto-estima?” repito em coro com Caroline.

Não digo que não seja preciso acionar os recursos necessários quando ocorrem abusos intoleráveis, agressões, etc. Mas tampouco é cabível que as leis que visam à liberdade religiosa sejam buscadas tão somente como aporte de direitos e benesses de uns que se posicionam como eternos “perseguidos” e o capítulo sobre deveres seja esquecido ou relegado aos “perseguidores”.

Quem será mais digno de pena, quem se coloca como perseguidor ou quem se aceita como perseguido?

Por isso ao invés de orgulho, tenhamos convicção!

Mas para isso é necessário, como diz o texto do Sr. Gregório Brandão: “O UMBANDISTA VERDADEIRO realmente acredita naquilo que professa” / “É aquele médium interessado, que sempre busca aprender mais, questionar mais, buscando compreender melhor como funciona sua religião e a espiritualidade.”

Ao invés de orgulho, tenhamos convicção do prq estamos na Umbanda.

O que não dá mais é; umbandista que tem medo de espíritos ou da própria sombra;

Que discursa, no real ou virtual “Umbanda é Paz, Amor, Caridade, Fraternidade, União,Humildade”, mas se houver contrariedade ou divergência, acusa, difama, desdenha, apunhala, ofende, “demanda”. Não prq o antes “irmão” agora convertido “adversário” ou “pedra no sapato” possa ter agido assim e “justificado” a reação, mas tão somente prq este ousou com argumentos e inteligência demonstrar que o castelo que parecia sólido se esfumaçou;

Acredita que É o cargo que ocupa e por isso TEM QUE receber todas as honras e saudações, aplausos e submissão ao seu paramento e não que ESTÁ neste como condição temporária e probatória necessária ao seu crescimento espiritual;

Incensa o Sr. Zélio de Moraes e o Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas prq fica bem ou é de bom tom (100 anos, festa, batuque, flashes, microfone, palavras de ordem, que beleza!!!!) mas não procura conhecer, compreender e seguir seus ensinamentos. Basta saber o “registro histórico” que tá muito bom, afinal de contas estão ultrapassados (assim como os outros antigos...) e agora temos evoluções teológicas;

Não incensa o Sr. Zélio e o Sr. Caboclo e isso lhe arroga o direito de inverter, manipular, menosprezar, aviltar seu legado e assim validar “minha Umbandinha”, “a Umbandinha que pratico”, “a minha verdade” (não é menosprezo meu, é assim que muitos escrevem numa pretensa aura de humildade e simplicidade);

Não assumir na denominação a vertente umbandista que pratica (Angola, Cristã, Esotérica, Branca, Omolocô,etc.) por desconhecimento de sua raiz ou prq é mais garantido se resguardar no velho chavão “Umbanda é uma coisa só!”, assim como encaixar outro lema “toalha da diversidade”;

Se recusar a conhecer e estudar a Doutrina Espírita / Evangelho como cabedais iluminados de aprimoramento interior (ah! mas são doutrinas “brancas”), mas que precisa fazer de tudo para se achegar aos Cultos de Nação e desta forma se sentir “africanizado”, “de volta às raízes”. Mas o máximo que muitos vão conseguir é se “achegar” mesmo, pois qdo começam a querer estudar de verdade sobre, percebem que a conversa é outra, bem mais séria e profunda e aí não dá mais para sustentar que Orixá na Umbanda e no Candomblé são “tratados da mesma forma”, “feitos aqui de um jeito mais leve e lá com mais fundamento”, entre outras coisas (salvo se permanecer em permanente estado esquizofrênico espiritual...).

A série de textos do Cláudio Zeus, Umbanda e a Torre de Babel esmiúça com notável propriedade o tema.

http://umbandasemmedo.blogspot.com/

Ao invés de orgulho adereço de camelô, tenhamos a convicção prisma, pela qual cada um seja instrumento de reflexão da Luz onde quer que esteja. Mesmo prq é assim de todo modo: “A boca fala do que o coração está cheio!” “Onde estiver seu coração, aí estará o seu tesouro!”, “Vós sóis o sal e a luz do mundo, se o sal perder o sabor e a luz estiver escondida, prá que servirão?”

“A dignidade pessoal não vem de fora ou da aprovação dos outros, mas de dentro, do conhecimento e aceitação de si mesmo, com defeitos e virtudes. Vem de uma segurança do próprio valor que não faz desejar ser o que não se é. E de um auto-amor que faz querer ser melhor, não para ofuscar os outros ou porque não se sinta merecedor de respeito e consideração, mas para realizar plenamente o potencial humano.

Já dizia Shakespeare: “Que obra de arte é o homem!” e, antes dele, Jesus: “Vós sois deuses!” Tudo o que precisamos é tomar posse de nossa natureza divina.

Somente o reconhecimento desta natureza confere calma, resistência pacífica, humildade. Não orgulho. O orgulho é uma mentira, e jamais constituirá a base da verdadeira dignidade. ”


Orgulho por ser umbandista? Eu não tenho! Eu tenho é convicção. E sigo minha caminhada com olhos e o coração cheios de esperança e alegria por poder estar "estagiando" nesta Escola da Vida Maior, onde Jesus é o Mestre Maior, os Orixás-Espíritos são manifestações de Deus que se derrama em tantas quantas fontes de Amor lhe é possível, justamente prá nos dizer o quanto nos Ama.

Afinal, é esta mesma Umbanda, a Mestra que me ensina a não se enquadrar em definições passageiras, mas sim a buscar a sua essência, eterna e imutável.

Não me cansarei jamais de repetir as palavras de minha Mãe Espiritual de Terreiro, Mãe Benedita que com sua paciência, dignidade e amor formaram o filho de fé que hoje sou, ainda que as tenha “esquecido” algumas vezes e batido cabeça em ilusões:

“Num crio meus fio prá ficá de agarrado na barra de minha saia, quero eles tudo di pé pelas própias pernas de cabeça erguida!”

Aqui to eu minha Mãe, batendo cabeça prá Senhora e prá Jesus!

"Bate cabeça, filho de Umbanda!
Pede força ao nosso Pai Oxalá,
Bença Mamãe, Bença Papai
Filho de Umbanda tem Côroa de Oxalá
Com a mão direita se toma a benção,
Com a mão na pemba vem saudar seus Orixás!"

Paz e Luz!

domingo, 6 de setembro de 2009

Umbanda e a Torre de Babel - Parte IV

CONTINUANDO SOBRE O TEMA ORIXÁS

Comecemos pelo que seria Orixá pelo lado dos Candomblés que, como já expliquei, são, em resumo, adaptações de diversos CULTOS A ORIXÁS AFRICANOS, INKICES E VODUNS, dependendo da tradição que as Roças, Ilês, Abaçás, etc., sigam.

Por que usei o termo ORIXÁ AFRICANO? Ora, por que ...

Isto já está e estará mais ainda, implícito no contexto daqui pra frente.

Três correntes básicas: Uma que diz serem os Orixás Encantados ou Espíritos da Natureza (neste caso Espíritos Elementais), outra que diz serem as próprias manifestações da Natureza (trovão, raios. fogo, águas, etc.) e outra mais ainda que diz serem Ancestrais Divinizados, também Encantados porque não chegaram a morrer, mas foram, de certa forma, "transformados" de humanos para divindades.

Mas .... (e esse mas tem eró ou awô) ao mesmo tempo, consideram "receber", "incorporar" ou entrar em ESTADO DE ORIXÁ (o que neste caso poderia ser entendido como um transe anímico, nada espiritual ou mediúnico) após as devidas "feituras".


Como ninguém incorpora, recebe ou entra em "estado de" qualquer tipo de Força da Natureza ou, em outras palavras, ninguém recebe, incorpora ou entra em estado de vento, fogo, trovão, etc., cai por terra, acredito eu, a hipótese de serem essas entidades incorporantes, qualquer tipo de Força da Mãe Natureza.

E para quem conhece mais a fundo os rituais de "feituras" nas diversas tradições, comparando-os aos rituais de criação de Elementais Artificiais nas diversas Escolas Ocultistas, verá que praticamente as bases são as mesmas. Além disto, sabe-se que essas entidades incorporantes a que também chamam "orixás" (o "meu" orixá, como costumam dizer) são totalmente particulares e intransferíveis, o que significa que não "baixam", incorporam ou colocam em "estado de" mais ninguém que não seja a própria pessoa que fez o pacto tendo-os "feito" ou criado em parceria com seus Babás ou Yayás.

Importante que se diga aqui que o ritual de "feitura" é considerado o ritual de "NASCIMENTO" do ORIXÁ PESSOAL, ou seja: é por esta ritualização que esse tipo de orixá nasce e passa a acompanhar o seu Yawô, protegendo-o até o fim da vida, ocasião em que é separado dele ou dela pela cerimônia do AXEXE.


Comparando essas características às de Elementais Artificiais criados nas seitas ocultistas, veremos semelhanças indiscutíveis – eles costumam ser criados para acompanhar e proteger o "mago" e devem, ou deveriam ser "despachados", desagregados, por ocasião do falecimento.

Se é coincidência ou não, deixo a seu cargo concluir. Se tiver vidência, melhor ainda.

Sob esse aspecto, qualquer umbandista que diga que "recebe" esse mesmo tipo de "Orixá Africano", só pode mesmo é estar errado pois, como já disse antes, esse tipo de "orixá" não nasce, se cria ou é feito sem ejé. E volto a afirmar que qualquer um que diga que sim, ou está totalmente enganado por "novos conceitos" que se espalham bizarramente (com insolência e arrogancia) ou está, subliminarmente, querendo passar atestado de bobo para qualquer praticante das raízes africanas de verdade.

Já pensou, você que conhece os rituais de "feitura", se os neo-umbandistas "receberem de verdade" esses mesmos "orixás" sem aqueles rituais e aqueles sacrifícios pessoais?

Brincadeira, não é não?

Aí, quando são "xoxados" (gozados) pelos africanistas, querem pular que nem pipocas em panela quente achando um ultraje a seus "conhecimentos", ritualizações e práticas.

Irmãos Umbandistas, mas Umbandistas mesmo, parem com isto!

Querem "receber" ou ostentar Orixás de Nação ou Africanos? Então sejam humildes, saiam da Umbanda e vão "fazer" seus orixás em uma boa Casa de Nação e depois, por experiência própria, voltem dizendo se é a mesma coisa. Vocês não sabem o que estão falando quando dizem ser "tudo a mesma coisa", apenas cultuados por formas diferentes.

Mas não é dar só um borí não! É "fazer o santo" meeeesmo!!!

Desculpem-me mas alguém tem que lhes dizer isto para que acordem os que puderem e quiserem!

Saindo dos Orixás Particulares (os que "descem" nos médiuns) e passando ao conceito de Orixá = Forças ou Elementos da Natureza, há aqueles que crêem poderem oferendar esses elementos com objetos materiais no intuito de "estarem de bem" com esses elementos ou forças e com isto alcançarem seus objetivos, normalmente também particulares.

Mas aqui entre nós. Será que vento, água, trovão, etc., vai receber em oferenda qualquer tipo de objeto material, mesmo uma flor que seja? Já pensou numa "arriada" pra fazer chover ou parar o trovão? Ou para pedir que uma pedreira não role sobre a casinha que você comprou sob risco?

Que tal dar flores às águas achando que Yemanjá é a própria água do mar e não um ser elemental ou divinizado que pode até controlar essas águas, conforme o conceito a nós passado, lá em cima, pelo escritor Pierre Verger?

A não ser por muita insistência, fica difícil entender ou aceitar esse conceito de que Orixás são os próprios Elementos ou Forças da Natureza e ao mesmo tempo quererem oferendá-los sob qualquer circunstância ... Ou não?

E agora vamos falar do conceito Orixás = Espíritos da Natureza, Encantados, Elementais Naturais neste caso.

E aí, os de pouquíssimos conhecimentos sobre o Universo Elemental, ao se depararem com essa possibilidade, que para mim é a menos fantasiosa, aparecem com aquela "base literária" apreendida dos livrinhos de contos de fadas que provavelmente lhes chegaram às mãos em algum período de suas vidas ou até mesmo lhes foram lidos por seus genitores, perguntando, em tom galhofeiro se os Orixás, então, seriam os silfos, salamandras, gnomos, elfos...

Lembrando que estamos falando de Orixás NÃO pessoais e NÃO incorporantes ou NÃO rodantes (como dizem os dos Candomblés), os chamados Espíritos da Natureza ou Espíritos Elementais existem em número e classificações não contáveis e sim: nas Seitas e/ou Escolas Ocultistas são tidos como os controladores das Forças da Natureza ou dos Elementos da Natureza, exatamente o que dizem sobre Orixás aqueles que os crêem como Encantados ou Espíritos da Natureza.

Mais uma coincidência? Será?

Só que essa "coincidência" nos permite entender melhor o porquê de alguns acharem que oferendando às Forças da Natureza estarão oferendando aos Orixás, sendo que, naturalmente, estão mesmo é oferendando aos Elementais que atuam sobre esta Natureza, mesmo que não se dêem conta disto!

Seria muito bom se antes de levarem certas idéias pelo lado da galhofa, procurassem estudar um pouquinho mais sobre esses tipos de Espíritos Naturais e depois fizessem comparações com o que se diz dos Orixás quando o conceito é o de que são Espíritos da Natureza, conceito este também muito difundido.

Ah! Você não acredita em Elementais e por isto não aceita que os Orixás não rodantes cultuados pelos Candomblés como Espíritos da Natureza sejam exatamente eles?

Como eu disse antes, acreditar ou não é problema particular de cada um. Só não se pode é negar sem ter pesquisado a possibilidade, tendo entrado antes "de cabeça" nos estudos sobre o tema. Afinal de contas, não é preciso nem que você acredite que existam Orixás!!!
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AGUARDEM
NA CONTINUAÇÃO, ORIXÁS SOB A ÓTICA DA UMBANDA ORIGINAL
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Umbanda e a torre e Babel - Parte III - CONCEITOS SOBRE OS ORIXÁS

Falando sério, esse assunto é por demais confuso na cabeça da grande maioria de umbandistas, não umbandistas e até mesmo candomblecistas que ora dizem ser orixás uma coisa, ora outra ...

O que acontece, na verdade, é que o termo, o vocábulo, a palavra O – RI - XÁ, antes de domínio Iorubá (Nagô) apenas, com o advento, principalmente dos Candomblés e das Umbandomblés acabou se popularizando e, de uma forma tal, que hoje em dia possui diversos significados.

E aí ... pra quem freqüenta a Internet, em diversas Comunidades de debate, onde se apresentam pessoas com as mais diversificadas "conclusões" sobre terminologia aplicada e suas pseudo-raízes, quando o tema a se debater é "ORIXÁ", percebe-se que enquanto uns estão tentando escrever sobre as entidades que "baixam" nos blés, outros estão tentando fazer o mesmo sobre os elementos e elementais da natureza, outros ainda sobre as energias cósmicas que seriam as responsáveis pela vida na Terra, de forma que se criam verdadeiras Torres de Babel, nesses debates em que ninguém se entende.

Como disse antes, a palavra ORIXÁ, no Brasil, foi trazida pelos Nagôs com o significado de DIVINDADES A SEREM CULTUADAS, em princípio, sendo possível depois, por ritualísticas próprias, marcarem presença através do que chamam de "feitura", junto a seus eleguns (os que são montados) e/ou vodunsis, acompanhando-os, então, até o final da vida.

Mas mesmo entre os Nagôs essa palavra designa "coisas diferentes, pois enquanto uns os têm como DIVINDADES NUNCA ANTES ENCARNADAS, outros os têm como ANCESTRAIS DIVINIZADOS, ou seja, para esses últimos os "orixás" seriam Espíritos Ancestrais que teriam se ENCANTADO e alcançado esse posto – "Orixá".

Vejamos este trecho de Verger em seu livro "Orixás": "O orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado, que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como a caça, o trabalho com metais ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização o poder, axé, do ancestral-orixá teria, após a sua morte, a faculdade de encarnar-se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada.(1)

Observamos acima que os Orixás seriam SERES HUMANOS capazes de controlar as Forças da Natureza, mas NÃO SERIAM AS FORÇAS DA NATUREZA em si.

Observemos abaixo mais esse trecho porque percebemos também, nas "rodas de debate" uma confusão incrível quando alguns pretendem ser o Candomblé uma Seita ou Religião de Origem Africana quando é "brasileirinho da Silva".

Observe, principalmente, que esse panteão de "Orixás" reivindicado pelos Candomblés Keto foi criado aqui mesmo, já que lá na África, até os dias de hoje, grupamentos que cultuam Oxum, por exemplo, sequer conhecem Yemanjá ou, como afirma Verger logo abaixo, Xangô, festejado como o Rei do trovão no Candomblé, assim é por escolha, já que em grupamentos como de Ifé ele sequer é conhecido, assumindo o lugar de Deus do Trovão outro "Orixá" de nome Oramfé.

"...ainda não há, em todos os pontos do território chamado Iorubá, um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico. As variações locais demonstram que certos orixás, que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, estão totalmente ausentes em outros. O culto de Xangô, que ocupa o primeiro lugar em Oyó, é oficialmente inexistente em Ifé, ou de um deus local, Oramfé, está em seu lugar com o poder do trovão. Oxum, cujo culto é muito marcante na região de Ijexá, é totalmente ausente na região de Egbá. Iemanjá, que é soberana na região de Egbá, não é sequer conhecida da região de Ijexá.

A posição de todos estes orixás é profundamente dependente da história da cidade onde figuram como protetores. Xangô era, em vida, o terceiro rei de Oyó. Oxum, em Oxogbô, fez um pacto com Larô, o fundador da dinastia dos reis locais, e em conseqüência a água nessa região é sempre abundante. Odudua, fundador da cidade de Ifé, cujos filhos tornaram-se reis das outras cidades iorubás, conservou um caráter mais histórico e até mesmo mais político que divino.

Alguns orixás constituem o objeto de um culto que abrange quase todo o conjunto dos territórios iorubás, como, por exemplo, Òrìsàálá, também chamado Obàtálá, divindade da criação, estende-se até o vizinho território do Daomé, onde Òrìsàálá torna-se Lisa, e cuja mulher Yemowo tornou-se Mawu, o "deus supremo" entre os Fon, ou então Ògún, deus dos ferreiros e de todos aqueles que trabalham com o ferro, cuja importância das funções ultrapassa o quadro familiar de origem. Algumas divindades reivindicam as mesmas atribuições em lugares diferentes Sàngó, em Oyó; Oramfè, em Ifé; Airá, em Savé. São todos senhores do trovão. Ògún tem competidores, guerreiros e caçadores em diversos lugares, tais como: Ija em torno de Oyó, Òsóòsi em Kêto, Òre em Ifé, assim como Lógunéde, Ibùalámo e Erinlè na região de Ijexá. Osanyìn entre os oyó desempenha o mesmo papel de curandeiro que Elésije em Ifé. Aje Saluga em Ifé e Òsúmáré mais a oeste são divindades da riqueza."(2)

E se esse assunto já é meio complicado para quem nos trouxe o vocábulo Òrìsà (que aqui virou Orixá), imaginemos então entre aqueles que acabaram se apropriando do vocábulo – e apenas dele – dando-lhes outros diversos significados.

Vamos voltar a 100 anos atrás (1908), quando o Culto de Umbanda foi criado (ou anunciado) pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas e, apelando para o que se tem de testemunhos escritos e gravados, vamos ver que na UMBANDA ORIGINAL não havia qualquer tipo de Culto a "Orixás" - como não existe até hoje na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, a primeira Tenda de Umbanda fundada pelo Caboclo e que se mantém até hoje trabalhando nos mesmos moldes.

Em 1933 o escritor Leal de Souza, aquele que primeiro escreveu e publicou qualquer coisa sobre UMBANDA, já dividia os grupamentos de Espíritos trabalhadores da Umbanda em Espíritos de SETE LINHAS, como já foi explicado em outro volume, inclusive uma dessas LINHAS chamando-se LINHA DAS ALMAS (ou DE SANTO), absolutamente nada tendo de semelhança ao culto a Obaluaiê/Omolu que foi inserido muito após por aqueles que se auto-rotularam de Umbandas mesmo mantendo em seus cultos as práticas e princípios das ritualísticas de cunho africano.

Nesta época assim nos explicava Leal de Souza sobre o que seriam Orixás para a Umbanda Original que também era chamada de Linha Branca de Umbanda e Demanda:

"O Orixá é uma entidade de hierarquia superior e representa, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. É pelos seus encargos, comparável a um general, ora incumbido da inspeção das falanges, ora encarregado de auxiliar a atividade de centros necessitados de amparo, e, nesta hipótese fica subordinado ao guia geral do agrupamento a que pertencem tais centros.

Os Orixás não baixam sempre, sendo poucos os núcleos espíritas que os conhecem. São espíritos dotados de faculdades e poderes que seriam terríficos, se não fossem usados exclusivamente em beneficio do homem. Em oito anos de trabalhos e pesquisas, só tive ocasião de ver dois Orixás, um de Euxoce (Oxóssi), o outro de Ogum, o Orixá Mallet."(3)

Repare bem você que para a Umbanda Original, Orixás eram ESPÍRITOS HUMANOS com certas peculiaridades em essência e não ELEMENTOS ou ELEMENTAIS da Natureza, e sequer ANCESTRAIS DIVINIZADOS, conceito este que se estende até hoje em boa parte das Umbandas NÃO AFRICANIZADAS.

Uma outra Corrente entende como Orixás, não qualquer tipo de Espírito seja ele humano ou elemental, mas sim ENERGIAS criadas pelo desdobramento ou divisão da Energia-Mãe ou DEUS, como queiram e mesmo usando o termo Orixá para a elas se referirem (por ser o mais comum) compreendem-nos como ENERGIAS DE RAÍZ ou VIBRAÇÕES ORIGINAIS, ambos os termos tendo como significado essas energias provenientes de DEUS, atuantes diretamente sobre todos, ou parte constitutiva da essência de todas as formas de vida, não só da Terra como do Universo.

Só por esses conceitos totalmente díspares, já dá pra perceber o porquê de não se poder discutir ORIXÁS tendo conhecimento de apenas "um lado do prisma".

Mas vamos TENTAR esmiuçar um pouquinho mais, tentando também dar subsídios aos seguidores dessas correntes de diferentes pensamentos para que entendam, finalmente, que, sendo os conceitos para Orixá totalmente subjetivos (assim como o conceito sobre o próprio DEUS ou DEUSA, quem sabe?), a aceitação final será sempre PARTICULAR e de acordo com o que mais se adaptar a cada mente pensante.

CONTINUA

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(1) e (2) Trechos do Livro "Orixás" de Pierre Fatumbi Verger
(3) Trechos do livro "O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda" do escritor Leal de Souza

Postado por CLAUDIO ZEUS : Segunda-feira, Agosto 31,2009


Obs: Negritos e Cores adicionados ao texto original por Edenilson Francisco, sem otorização do Cláudio Zeus que certamenet vai me fazer pagar umas 30 novenas perpétuas, rsrsrsrsrs


Paz e Luz!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Eu vivo de fato o que digo acreditar?

Oi! Estou me "apropriando" de uma postagem feita pelo Luciano na Comunidade Espiritismo do Orkut, pois são sem dúvida alguma, de uma lucidez profunda..

Estava na Codificação o tempo todo

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=1690810&tid=5294457180271192757

E é claro que o Luciano sendo espírita, usou a Codificação como base, então minha intenção ao trazer para cá, não é necessariamente discutir a D.E., mas baseando no trecho exposto + os valiosos questionamentos, refletir (auto e extra) quanto ao nosso quintal (comunidade umbandista e afro (prq não?)).

E o faço pelo seguinte, ao passear por comunidades umbandistas, sites, blogs, percebo que o queixume não muda, somos os perseguidos eternos, os massacrados pelos neopentecostais, pela ICAR, pela sociedade que insiste em não nos entender (ó sociedade teimosa não é mesmo?).

Mas vejo muito pouca auto-reflexão, muito pouco auto-critica. Vejo muito pouca disposição em questionar o que é colocado como verdade ancestral. Crítica apontando o dedo podre para os outros isto não falta...

Leio e ouço muito discurso sobre a defesa da Umbanda e dos umbandistas, e não nego que existam ações que são afrontas doutrinarias e constitucionais e mesmo agressões fisicas. Tão pouco estou alheio que há ações positivas aqui e ali na questão do diálogo extra-comunidade.

Mas e quanto ao diálogo intra-comunidade? Fica restrito ao universo de cursos (via de regra enviesados por esta ou aquela fôrma de ver Umbanda), listas de discussões (argh!!!!) ou reuniões onde se é (quando se é!) convidado para dar seu apoio a eventos diversos (mas sem possibilidade de divergir)?

Externamente divulga-se que existimos para transformar, internamente existimos para apoiar incondicionalmente nossos lideres e guerreiros, que sem dúvida enxergam muito mais além (só me pergunto para qual horizonte e com qual objetiva).

Recordo-me de uma colocação feita por Pai Bruno Tonini Barbosa, representando o CONUB - Conselho Nacional da Umbanda do Brasil no I FÓRUM UMBANDISTA SOBRE LIBERDADE RELIGIOSA realizado em 2007 em Bauru:"Mais do que orgulho, é preciso ter convicção (em ser umbandista)".

Convicção: s.f. Certeza adquirida por fatos ou razões; persuasão íntima, convencimento. Ou de outro modo:

"Tenhais confiança não no mestre, mas no ensinamento.
Tenhais confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras.
Tenhais confiança não na teoria, mas na experiência.
Não creiais em algo simplesmente porque vós ouvistes.
Não creiais nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração.
Não creiais em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos.
Não creiais em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados; não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou.
Não creiais em algo meramente baseado na autoridade de seus mestres e anciãos.
Mas após contemplação e reflexão, quando vós percebeis que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para vós quanto para os outros, então o aceiteis e façais disto a base de sua vida."

Sidarta Gautama (o 24º Budha)

Mas como incentivar, promover e divulgar tais ensinamentos e deixar "escapar" pelos dedos o imenso prazer em ser adulado, obedecido, aplaudido, temido, reverenciado não é mesmo? E olha que não falo aqui só de Umbanda...

Precisamos a todo momento estar de branco, com guias ao pescoço ou vestindo nossas camisetas com lemas, fotos, desenhos de Orixás, Guias, terreiros prá mostrar que existimos ou será que nossas ações no dia a dia em conformidade com a doutrina que abraçamos não falariam mais alto?

Mas aí seria imprescindivel que conhecessemos de fato e a fundo a doutrina que vestimos, discursamos não é mesmo?

Eis onde nasçe o giz da questão! Pois o que acontece qdo nos deparamos de frente com o espelho de nossas ações, em geral o efeito destas no outro que nos retorna (e com certeza para toda ação haverá reação de valor igual), e "descobrimos" que estamos sendo hipócritas?

Nos desculpamos alegando que somos falhos, fracos, tão humanos, que não somos tão elevados quantos nossos guias, Orixás ou deixamos tal e qual uma ferida infeccionada que o pus seja expulso? Mas ai! quantos de nós estamos dispostos a experienciar tal expurgo?

Bom, vamos ao texto supracitado e Oxalá! frutifiquem nossas reflexões (destaques em vermelho meus);

Estava na Codificação o tempo todo

"A resposta para os anseios de muita gente aqui e alhures já estava há muito tempo, e muito bem (como sempre) colocada, no Livro dos Espíritos.

Vejamos...

A questão (de número 842), é: "Todas as doutrinas têm a pretensão de ser a única expressão da verdade; como se pode reconhecer a que tem o direito de se posicionar assim?"

Essa pergunta é tão abrangente, que vale hoje tanto para os grandes sistemas religiosos/filosóficos, como Cristianismo, Budismo, quanto para divisões políticas e também para uma reflexão sobre o panorama interno do movimento espírita.

A resposta, meus queridos amigos de comunidade, é para ser saboreada e refletida cuidadosamente, aplicando-a como sempre em primeiro lugar a nós.

A doutrina mais verdadeira:

"R– Será aquela que faz mais homens de bem e menos hipócritas, ou seja, pela prática da lei de amor e de caridade em sua maior pureza e sua aplicação mais abrangente. A esse sinal reconheceis que uma doutrina é boa, já que toda doutrina que semear a desunião e estabelecer uma demarcação entre os filhos de Deus só pode ser falsa e nociva.

Temos aí então um parâmetro muito claro para avaliar... Não é preciso debater-se nem digladiar-se, basta apenas a certeza de que a Verdade está do lado da caridade, da união e da igualdade."

A reflexão que faço (e eu tbm!) é: estarei eu sendo, dentro do máximo de minhas capacidades, um bom exemplo para aquilo em que acredito?

Estou eu agindo de forma idônea e coerente com meu sistema de crenças, ou estou tendo dois pesos e duas medidas, ou duas caras, uma em casa, e outra na casa do vizinho?

Quando falo em amor, caridade, doçura, afabilidade, essa palavas encontram eco nas minhas atitudes? Ou será "caridade" apenas mais uma palavra ao vento?

E por outro lado, quando crio divisões, desunião, demarcações, inclusive na forma de "facções" do Espiritismo (e por extensão Umbanda), chegando ao extremo de diglas e códigos, estarei eu fazendo jus à doutrina que deveria ser uma expressão viva da Verdade?

Enfim, estou vivendo de fato como que digo acreditar?

Estou vivendo de fato a Umbanda que digo ser Amor, Paz, Luz, Caridade, Fraternidade?

Boas reflexões!

Paz e Luz!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Entrevista com Mãe Stella - Aprendamos de quem têm a nos ensinar!

http://cenbrasil.blogspot.com/2009/08/quando-se-fala-na-lideranca-feminina-no.html
Meu votos do mais profundo respeito à Senhora Mãe Stella!




Quando se fala na liderança feminina no candomblé, nomes como Iyá Nassô, Iyá Detá e Iyá Kalá são sempre lembrados. Essas mulheres, africanas corajosas, trazidas para o Brasil na época da escravidão, se reuniam ao culto aos seus orixás contra tudo e contra todos.

por mauricio pestana fotos januário garcia
Nos séculos de cativeiro, elas eram princesas antes de serem escravizadas e enviadas ao nosso país. Tiveram de se utilizar de mil artifícios para conseguir processar a sua fé e, por meio delas, são recontadas histórias de crenças, perseguições e culto dos orixás que resistem ao tempo e ao preconceito. Com os anos, outras dessas mulheres de fibra surgiram no cenário nacional, principalmente na Bahia, entre elas Mãe Aninha, Mãe Senhora e Mãe Menininha do Gantois.
Carregando hoje o bastão e responsabilidade está Mãe Stella de Oxóssi, a maior Yalorixá do Brasil. Nascida em Salvador, em 2 de março de 1925, se formou na Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia, com especialização em Saúde Pública e exerceu a profissão por mais de 30 anos. Mãe Stella foi a primeira Yalorixá de um terreiro tradicional a combater o sincretismo religioso com a igreja católica.
Desde que assumiu o Ilê Axé Opó Afonjá, em 1975, a casa religiosa transformou-se numa universidade da cultura afro-baiana, tanto que, em 1980, foi fundado por lá o Museu Ohun Lailai, o primeiro de um terreiro de candomblé. Com o mundo acadêmico mais próximo, passou a fazer conferências pelo País e em universidades americanas e inglesas, além de escrever livros sobre o tema. Em entrevista exclusiva, Mãe Stella (autoridade máxima do candomblé no Brasil) fala dos desafios da religião e de sua experiência à frente do Ilê Axé Opó Afonjá, que está prestes a completar 100 anos.
O Ilê Axé Opó Afonjá vai completar 100 anos. Qual o maior desafio para o candomblé nos dias de hoje?
Sem a menor dúvida o maior desafio nos dias de hoje é se manter forte e firme, em uma só corrente, superando todas as adversidades e as nossas diferenças, e nos disponibilizando apenas ao nosso princípio, que é o de servir, superando tudo pela nossa fé e determinação.Para uma religião com grandes mistérios, como é conviver com algo passado muitas vezes de forma oral, sentindo na pele a manifestação do orixá em um mundo cada vez mais tecnológico, influenciando diretamente a comunicação, que tem na linha de frente a internet?Isso é outro desafio, porque essas coisas são tentadoras, a globalização trouxe avanços, mas também a necessidade de sermos mais vigilantes, mais responsáveis na questão espiritual. No candomblé nós passamos o que deve ser passado, mesmo porque, as coisas que não são passadas com axé não têm importância nenhuma, não têm valor nenhum, logo, temos a responsabilidade de só passar o que devemos passar de forma verdadeira. E eu garanto: axé não se passa via internet e nem nunca se passará.
Há quase dez anos estive aqui, acompanhando o ministro da cultura, Francisco Belfort, no ato de tombamento do axé como um patrimônio histórico. O que isso influenciou ou melhorou a vida do Axé Opó Afonjá?
Felizmente ficamos livres da especulação imobiliária dos invasores e até mesmo de alguns de nossos filhos, com ideias de remodelação que pudessem chocar com o patrimônio que nós já temos e fazemos força de mantermos da maneira em que Mãe Aninha nos deixou. Melhoramos, limpamos, mas a nossa essência tem de ser a mesma. O tombamento foi válido por isso, temos a certeza hoje da preservação de nossa memória e de nosso axé!
Hoje presenciei de manhã um culto muito bonito: o Amalá de Ogum, o qual muito me emocionou e cuja maioria das pessoas não era negra. Mas já presenciei cultos de religiões, por exemplo, evangélicas, em que a maioria dos adeptos era negra. Com isso, a questão racial está desvinculada da questão religiosa?
Está sim. Em toda vida eu ouvi essa repressão, essa coisa de divisão de raça. E a minha religião, o candomblé, é a que enfatizava mais isso! Só branco poderia fazer parte de determinadas instituições religiosas, mas do candomblé, não! Engano, o candomblé aceita todos que queiram, porque o divino não tem preferência de cor ou raça, ele quer o coração de cada um e a doação de si que é o mais importante. O candomblé é a religião que mais integrou gente, independentemente de cor, procedência ou orientação sexual. Aqui recebemos e respeitamos todos: brancos, pretos, mulatos, japoneses, alemães ou americanos. Seja qual for a sua natureza ou orientação sexual, o que vale para nós é o coração e a doação de si. Aqui é um lugar de doação.
Na atualidade, há um número excessivo de religiões pregando o paraíso de forma rápida e convincente. A salvação virou quase que um negócio para praticantes de diversas religiões. Como a senhora vê isso?
Eu chamo essa coisa de sinal dos tempos. Pelo número que a população do planeta aumentou, evoluiu, as pessoas se tornaram mais aptas à leitura e a certas práticas. Ficou mais fácil para qualquer pessoa que tenha alguma crença dominar algumas informações e se aproveitar da carência do outro, negociando a fé, e isso acontece em todas as religiões, em qualquer lado.
Acontece no candomblé?
Sim, muitos deles caem aqui, fazendo oferendas, fazendo pedidos, e às vezes até de forma velada. Quando é assim, eu faço força para não atender, embora fuja do meu princípio de não atender as pessoas. Mas aqueles que querem ter um mediatismo - onde se consegue e se faz promessa - e um orixá como sagrado, não vamos ganhar. Nós vamos para pedir pela fé e conseguir pelo merecimento.
O axé é frequentado por muitos artistas de todo o País, até do exterior. Também consultam com a senhora políticos influentes, mas porque poucas pessoas da vida pública se assumem como sendo do candomblé?
Isso para mim é ter uma personalidade fraca, porque a pessoa deve assumir a sua prática. Eu faço isso e assumo que sou isso, eu frequento tal lugar e assumo que frequento tal lugar, mas às vezes pela ambição de reconhecimento e status, as pessoas abafam sua crença, embora precisem muito, mas abafam! Eu não apoio, mas como o orixá é sagrado ele está aqui para atender a todos que precisam dele.
Como é que a senhora vê os ataques frequentes à nossa religião, ora pelos meios de comunicação, ora de forma física mesmo... Eu sei que até o próprio orixá já sofreu disso..
Uma coisa que eu apenas peço ao sagrado para nós é que nos dê força e condição, porque essas pessoas não são nem dignas de registro. Para mim essas pessoas não existem, não há ser humano que tenha a capacidade de pensar como ser evoluído, e isso é barbarismo, é loucura. Então, eu peço apenas no pé do orixá que dê seguimento a eles, inteligência e condição para seguir o caminho, sem rebaixar os outros.
Há muito tempo o candomblé ganhou a academia. São centenas de teses de mestrado, doutorado e outros estudos sobre a religião. Existe também quem considere até uma forma filosófica de vida. Qual a sua opinião sobre isso?
Infelizmente, há muita gente que adora aproveitar do símbolo alheio. Nós temos os nossos símbolos e lutamos há milênios com eles, que têm nos segurado. Logo, não apoiamos quem usa os nossos símbolos para ganhar dinheiro, fazer carreira, sucesso ou propagandas das nossas práticas, porém, tem muito trabalho sério que deve e precisa ser apoiado.
Paz e Luz!